quarta-feira, 3 de agosto de 2016

O livre pensar - Mario Sergio Cortella


"Uma das coisas mais perniciosas para quem deseja dedicar-se à Filosofia é supor  que ela serve para ensinar a pensar. É necessário lembrar que pensar é um atributo atávico da espécie, certo? Não é ensinado. Aí você diz: "Não, mas é porque a Filosofia ensina a pensar de forma crítica". Não necessariamente. Os nazistas tinham seus filósofos. As ditaduras têm os seus filósofos. Isso significa que a Filosofia em si não tem a pureza que se deseja, ela precisa ser purificada. Essa purificação vem à medida que a gente retira dela qualquer marca e tenta ser objetivo, para que nela não haja marca alguma de autoritarismo. (...)
Não há como fazer Filosofia sem ideologia. Aliás, porque Filosofia também é ideologia. Uma das formas mais claras de ideologia é exatamente a Filosofia. Talvez o que  a gente queira seja retirar da Filosofia a natureza doutrinária que algumas ideologias têm. No meu entender, é da natureza do pensamento filosófico que você seja capaz de dizer às pessoas 'pense nisso', em vez de 'pense isso'. Porque o 'pense isso' é o pensamento impositivo. Enquanto que o 'pense nisso' é a oferta de uma série de indagações para uma reflexão que torna a nossa existência mais nítida, mais clara, mais consciente e, portanto, menos alienante. A Filosofia por si, como disciplina, não tem o poder de desalienar. Nada é por si mesmo libertador, ou alienador. Dependerá do conteúdo e do contexto. Então, eu saúdo com alegria a recuperação do ensino de Filosofia no ensino médio. Desde que o conteúdo seja não doutrinário. Não seja um conteúdo catequético. E, portanto, não tenha uma natureza proselitista. Filosofia não pode ser proselitista porque isso anula um dos seus pontos centrais de apoio, que é o livre pensar."
MARIO SERGIO CORTELLA. Entrevista à Faoze Chibli. In. Revista Filosofia, Ciência e Vida, nº3.

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