domingo, 7 de agosto de 2016

A filosofia é amizade para com a Sapiência

 
"Primeiro, entre todos, Pitágoras deu à procura da sabedoria o nome de filosofia, e ele preferiu ser chamado 'filósofo', enquanto antes se falava simplesmente de 'sóphoi', ou seja, sábios. Com efeito, é bonito que ele chame os pesquisadores da verdade não sábios, mas amantes da sabedoria, pois a verdade total está tão escondida, que, por mais que a mente arda do seu amor, por mais que se empenhe na sua inquirição, é difícil chegar a entender a verdade como ela realmente é. E assim ele definiu a filosofia como a doutrina daquelas coisas que fossem verdadeiras e possuíssem uma substância imutável.
A filosofia é, portanto, o amor, a procura, e uma certa amizade para com a Sapiência, mas não aquela sabedoria que se ocupa de tecnologias e de ciências produtivas, e sim aquela Sapiência que, não carecendo de nada, é mente viva e 'única razão primordial das coisas'. Este amor da Sapiência é uma iluminação do espírito inteligente por aquela pura Sapiência, e num certo sentido um retorno e um chamamento para si por parte daquela Sapiência, de modo a poder-se concluir que a procura da Sapiência é uma amizade com a divindade e com a sua mente pura. E esta Sapiência transfere para todo tipo de almas o primor de sua divindade e as traz de volta para a sua própria força e pureza natural. Daqui nasce a verdade das especulações e dos pensamentos, assim como a compostura santa e pura dos atos.
No ato de filosofar, a Mente divina ilumina a mente do homem, para que este se recoloque na sua dimensão divina originária. Num certo sentido, o ato humano de filosofar é um ato do homem, mas é também um ato de Deus. O homem olha para a Sapiência e recupera a sua semelhança com Ela, a sapiência ilumina o homem e recupera a integridade divina que tinha infundido nele, chamando-o para si. Deus ganha e o homem ganha. Por isso, a filosofia é um exercício de amizade entre a mente humana e a Sapiência. Pela filosofia, a alma do homem recupera a sua pureza e força originária, pelas quais ficam garantidos os dois objetivos do filosofar: a verdade nos pensamentos e a ética nos atos".
HUGO DE SÃO VITOR. Didascálicon, da arte de ler.

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